2018 - MUITO A DIZER 2

 

 

MUITO A DIZER 2

Amelie tem muito a dizer.

O alfabeto já está na ponta da língua. Escolha uma letra qualquer e ela pronuncia sem titubear. Os sons são belos e divertidos. Em sua mente a palavra está perfeita, clara, porém, no longo caminhar até o mundo aqui fora ela passa por alguns obstáculos e quando sai, sai um pouco... diferente. Nada que umas duas ou três repetições não ajeitem. Não vai me dizer que você nunca enrolou a língua ao pronunciar um ípsilon?

Amelie se esforça. Às vezes percebo que fica impaciente consigo mesma em certas situações. Não aceita ficar para trás, não aceita errar e por isso ruge tantas vezes. E de tantas vezes que ouviu de mim ou da mãe o conselho: Calma..., hoje ela usa esta palavra de forma muito sábia. Aliás, Calma e Desculpa estão entre as Top 5 das mais utilizadas por ela nas situações em que a coisa fica feia para o seu lado.

Desculpa parece ser uma palavra mágica. Às vezes ela já pronuncia enquanto está fazendo o que não deve, só para garantir a inocência prévia, eu creio. Ela descobriu, no começo, que desculpa freava um pouco o ímpeto enérgico de quem vinha corrigi-la ou exigir algum comportamento adequado. Porém, ela passou a utilizar demais a expressão. Tivemos que explicar a ela quando se usa esta palavra e para que, e que não adianta pedir desculpa e cometer o mesmo erro novamente, ou mesmo estar pedindo desculpa enquanto comete o delito. Ela já estava numa onda de Só a desculpa salva.

Ela já me chama de pai, papai. Aliás, depois que descobriu essa palavra, acredito que quis compensar o tempo em que me chamou de mamãe, e disparou a falar pai desesperadamente. É um dos sons mais belos que já ouvi.

Amelie continua cantando. Em vários momentos cantamos juntos. Eu começo a frase e ela termina e quando cansa de me ouvir, simplesmente diz chega papai, e continua sozinha.

Ela precisa se ouvir. Noto que está se conhecendo assim. Nossa voz diz muito sobre nós mesmos.

Assim como diz o espelho. Não me refiro aqui a nossa simples imagem refletida, mas o que captamos quando realmente nos enxergamos ali, naquela superfície polida. As expressões, a profundidade do olhar, o cenho carregado ou leve, o medo ou prazer de se encontrar.

Se pudesse, Amelie moraria no espelho. É ali que ela conversa consigo mesma; é ali que ela se diverte com caras e bocas; é ali que ela dança e conhece seu corpo; é ali que ela se percebe como alguém feliz. O espelho é um lugar tão importante, tão íntimo por vezes, que hora ou outra somos literalmente expulsos do reflexo, pois não cabemos naquele seu espaço tão admirado e reverenciado.

Amelie tem muito a dizer. É ela quem me puxa para fora de casa na maioria das vezes, para o quintal, para o parque, dizendo: sai do meio das paredes, papai! E às vezes isso se dá de uma forma bastante radical e perigosa, com ela simplesmente fugindo porta a fora, correndo desarvorada pelas ruas do condomínio – dando boas risadas, é claro – indo em direção ao parquinho. E se quiser acompanha-la, que venha atrás!

Para ela não há perigos nesta vida. Não há carros com motoristas irresponsáveis nas vias em frente à nossa casa; não há cachorros ferozes; não há possibilidade de se cair de um degrau de uma escada, descendo com o rosto grudado em um smartphone; não há problema em sair correndo pela casa com uma faca nas mãos; não há porque usar o cinto de segurança dentro do veículo; não há nada a temer.

Somos nós que apresentamos os perigos. Trabalho sem graça, porém necessário. Alertar sem assustar, corrigir sem tolher, frear sem segurar, proteger a vida sem deixa-la fluir em abundância...

Em sua companhia lidamos concomitante com dois Tempos: o Tempo do Relógio, apressado, impreciso, estranho muitas vezes; e o Tempo da Delicadeza, mais lento que este outro, com mais espaço para sorrir, para aprender e perceber o mundo.

Amelie tem seis anos e meio no Tempo do Relógio. Fala a mais bela língua que já ouvi. No Tempo da Delicadeza já temos uma vida inteira juntos.

Andrey Cechelero






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