2017 - CONECTE-SE

 

CONECTE-SE

Primeiro ela encontrou a lua - Descoberta fabulosa. Conectou-se com ela. Que alegria! Lua! Lua! Repetia para mim e para todos que ia encontrando na via movimentada em frente à escola.

Sua admiração parecia estar dizendo: - Como vocês não estão todos olhando para o alto? Como não estão admirando aquilo lá no céu?! E realmente, andamos um tanto esquecidos de ver a lua, ou pelo menos de admirá-la como ela merece. O fantástico passa a ser invisível uma vez que nos acostumamos com ele. (será que precisa ser assim... não é isso um distúrbio, uma doença, talvez?)

Ela debruçou-se na janela de um veículo parado e convidou a menina desconhecida para contemplar o astro também: - Lua! E apontava para a grande letra C firmada na amplidão laranja daquele final de tarde de outono.

Depois começou a me falar numa língua estrangeira, difícil, porém extremamente bela. Falar sem parar, como quem precisa contar e contar. Estou aprendendo com ela o novo idioma – um pouquinho cada dia. (como pais nos preocupamos tanto que nossos filhos falem logo, falem corretamente, que se adaptem ao nosso idioma e suas convenções, porém às vezes vale a pena nos permitir aprender um pouco a sua linguagem, a sua forma de comunicação. Para mim é uma forma de me conectar a eles e descobrir muitas coisas interessantes.)

Eu segurava sua mão firmemente, pois de tão lépida, tão leve e feliz, ela poderia, a qualquer momento, sair voando por aí – e não tínhamos permissão para levantar voo naquele momento...

A outra mão, livre e agilíssima, agarrou uma bolsa de mulher e puxou. Eu não percebi.

- Oi! – disse minha filha, sorrindo em meio à duas covinhas.

-Desculpe! – disse eu, meio sem jeito. (Puxar a bolsa de alguém, nos dias tensos que vivemos atualmente, pode gerar cataclismos!)

Aquela pessoa cruzava nosso caminho a passos largos e olhar duro. Não sabíamos seu nome, de onde vinha, para onde estava indo. Parecia que passava invisível pela calçada. Só vimos que cuidava muito bem do chão e da bolsa.

Ela, então, retribuiu o cumprimento e o sorrir inesperado e seguiu.

Amelie tem superpoderes. Um deles é enxergar pessoas invisíveis e se conectar a elas.

E mais adiante ela descobriu outra: um homem de meia idade, tez castigada pelo sol, puxando com dificuldade um carrinho repleto de recicláveis.

Ele estava embalado, não poderia desacelerar no aclive, mas foi irresistível.

-Oi!! – Disse ela, encantadora, sacudindo as mãos.

Não era um Oi proforma, por educação, não. Ela mudou o rumo de seu caminhar e foi até ele, decidida e exuberante.

Ele freou com dificuldade, recostou o instrumento de trabalho com cuidado – pois o peso era imenso – soltou as mãos da barra de apoio e fez questão de cumprimentá-la como se deve, como gente mesmo – mão com mão, olho com olho.

E tudo isso aconteceu em menos de dez minutos de nossas vidas...

***

Hoje, voltando à cena diversas vezes para colher os detalhes preciosos, fico a pensar se realmente podemos alegar que nos falta tempo para nos conectarmos uns com os outros, se falta tempo para firmarmos uma conexão com essas obras de arte grandiosas que desfilam diariamente diante de nossos olhos: A lua, as árvores, o sol, as nuvens, os perfumes, os sons - a natureza que tratamos como pano de fundo de nossas existências, mas que poderia, quem sabe, ganhar um papel de maior destaque entre cada dormir e acordar na Terra.

E nestes tempos em que falamos tanto em conexões, em estarmos conectados com o mundo todo – gabando-nos disso – deixo aqui algumas questões:

Que tipo de conexão realmente devemos buscar na vida? Com o que ou com quem devemos nos conectar?

Pois, termos informações mil não nos tem feito melhores e mais felizes, certo? Sabermos que a comunicação está veloz como nunca, não tem resolvido nossos conflitos mais profundos, tem? Lermos o que todos escrevem aqui, ali e sabermos da vida alheia com detalhes não nos tem feito menos solitários, não é verdade?

Qual, então, a conexão mais importante? Onde ela está?

Creio que está onde sempre esteve: no coração. Nada mudou. Nossas carências ainda são as mesmas e o caminho para construirmos uma sociedade mais digna permanece igual: o do amor.

Minha Amelie e seus superpoderes me mostram que a conexão com esta força maior que nos rege e nos cerca pode ser feita através de nossa sensibilidade; que podemos nos conectar à sociedade através de nosso próximo, aprofundando o envolvimento e o interesse pela vida do outro, e que nossa conexão com o mundo é sempre através de nossa família em primeiro lugar.

Enfim, é o Amor que nos conecta a todo o Universo dizendo Oi!, com a doçura e a pureza de uma criança...

Andrey Cechelero





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