2015 - EU TAMBÉM POSSO FAZER

 

EU TAMBÉM POSSO FAZER

Saint-Exupéry narra com maestria em seu Terra dos Homens[1], quando ainda era jovem piloto, a experiência de ter assumido o Correio Aéreo da África.

Ao receber a notícia que partiria na manhã seguinte para seu primeiro dia de trabalho, confessou que talvez não estivesse ainda bem preparado.

Expressou assim sua insegurança a um companheiro de voos naquela mesma noite.

Narra o autor que seu amigo “espalhava confiança como uma lâmpada espalhava luz”. Um amigo que mais tarde iria bater o recorde das travessias do Correio Aéreo da Cordilheira dos Andes e do Atlântico Sul.

Diz-nos Exupéry que “sorrindo o mais reconfortante dos sorrisos, ele me disse simplesmente”:

- As tempestades, a bruma, a neve, por vezes essas coisas o incomodarão.

- Pense então em todos os que conheceram isso antes de você e diga assim: o que eles fizeram eu também posso fazer.

Como pai, desejo dizer aos meus filhos que os novos desafios nos trazem insegurança, é verdade...

É um aperto no peito; uma dor no estômago; uma noite mal dormida, onde os sonhos ficam projetando um possível insucesso repetidamente.

É natural que nos sintamos assim por alguns momentos. São instantes que ensejam uma busca por nossas habilidades, nossas capacidades internas.

Sempre será uma chance de nos conhecermos, quando inquirimos: Será que eu sou capaz? Será que suportarei? Vencerei?

Porém, se nossa autoestima estiver rebaixada, ou se nosso conhecimento sobre nós mesmos for precário, a tendência é que a insegurança reine por mais tempo ou até mesmo derrube nossa aeronave. Poderá ser tão poderosa a ponto de nos fazer desistir, retornar.

Como se a vida nos convidasse a dar mais um passo e, ao erguermos o pé do chão, nos sentíssemos em desequilíbrio e preferíssemos voltar a perna na posição inicial.

Por esta razão o conselho recebido pelo jovem aviador é precioso.

Quem sabe, pensar em todos que já conseguiram antes de nós, ou em todos aqueles que já passaram por isso e sobreviveram, seja grande ajuda.

“O que eles fizeram eu também posso fazer”. Esta frase nos fala do potencial que todos temos, é motivadora, mas também deve nos lembrar de questionar: Como eles conseguiram?

Sim, pois vencer desafios exige sempre muita preparação, muito esforço e grande dedicação.

Desta forma, se nos tivermos preparado, feito nossa parte bem feita, não há razão para temer, não há razão para deixar que a insegurança nos domine e nos paralise.

Tempestades, brumas e a neve são comuns e naturais na vida.

As intempéries são escolas para pilotos, para almas que buscam aprimoramento e resistência. Elas sempre existirão. Estão, de certa forma, fora de nosso controle ou comando.

O que está sob o domínio de nosso manche é nossa aeronave Espírito, e nossa habilidade de contornar as tempestades, de fazer boas escolhas no ar, de suportar ventos contrários sem largar a alavanca de controle, enfim, de vencer a nós mesmos levando-nos a um pouso seguro.

Por isso, desejo dizer aos meus filhos que eles são capazes, sim, pois já presenciamos suas vitórias muitas vezes.

Desejo dar apenas dois exemplos:

Lembro de você, filho, aos seis anos de idade, quando descobriu aqueles piões modernos multicolores, feitos de metal e plástico que batalhavam em pequenas arenas. Foi febre entre as crianças durante um bom tempo. Os brinquedos eram desmontáveis, tinham peças intercambiáveis, pontas com funções diferentes, carenagens de “ataque”, “defesa”, “resistência”. Haviam muitos modelos disponíveis (um peso no bolso dos pais, obviamente). O curioso era que os melhores jogadores eram aqueles que “montavam” os seus, desenvolvendo estratégias, e não os que usavam os piões prontos. Pois bem, em menos de nove meses você aprendeu tudo que se podia aprender sobre isso, pesquisou, leu, assistiu vídeos e mais vídeos (inclusive em línguas diferentes da sua). Sem perceber você estava estudando inglês, física, matemática e se dedicou a algo com muita vontade. Foi ao primeiro campeonato. Perdeu na segunda ou terceira batalha. Não se afetou nem um pouco, não desanimou. Você prestou muita atenção nos competidores que jogavam melhor para entender suas jogadas. Aquela derrota apenas lhe motivou para pesquisar e “treinar” ainda mais, lembra? Eu tive a alegria de treinar com você algumas vezes – perdendo quase sempre. Em sua segunda competição você ficou em segundo lugar. Comemoramos muito. Vice-campeão entre mais de cinquenta crianças, chegando na frente, inclusive, de outros até cinco anos mais velhos que você. Não esqueço sua felicidade. No segundo e terceiro campeonatos você foi adiante: campeão. Outro aspecto que me impressionou bastante, e me deixou muito “orgulhoso” foi o fato de que as vitórias não lhe fizeram vaidoso. Em momento algum você desrespeitou seus adversários, em momento algum você assumiu a postura de “sou o bom”. Essa foi mais uma vitória dentro daquelas vitórias.

Lembro de você, filha. A Síndrome de Down fez você nascer toda “molinha”, como sua mãe dizia, isto é, com Hipotonia[2]. Fazer com que você se sentasse e depois, conseguir que você andasse, foi um enorme desafio. E este desafio foi seu em primeiro lugar, pois você foi a grande determinada. Em momento algum reclamou dos exercícios seguidos, repetitivos e cansativos que tinha que fazer todo santo dia. Terapias pela manhã, escola à tarde e mais terapia após o horário escolar, e você sempre de bom humor, persistindo, lutando (isso tudo antes dos dois anos de idade). Percebíamos que lá, na sua mente, lá dentro, você já estava caminhando. Você já sabia o que fazer e como fazer, mas seu corpinho ainda não correspondia. Seus olhos brilhavam ao acompanhar seu irmão correndo ao seu redor – o que foi um grande estímulo também. As outras crianças da sua idade já andavam há um bom tempo e você ainda não, mas nem nós nem você ligávamos para isso – já sabíamos que seu tempo ia ser diferente mesmo. Quem olhasse as complicações lá no começo poderia dizer: “não sei se essa menina vai conseguir andar...”. Porém você andou, filha, com dois anos e dois meses você estava andando. E ainda lembro de me emocionar quando percebemos que, apenas com três aninhos, você conseguia se levantar, estando na posição de lótus, sem sequer colocar as mãos no chão (algo que nem eu conseguia fazer). Aquilo era força. Era tônus muscular. Era uma de suas primeiras grandes vitórias!

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Quando o Modelo e Guia da Humanidade afirmou: “Vós sois deuses”; e também que “Aquele que crê em mim fará as obras que eu faço e outras maiores”, Ele falava de potencial.

Conhecia profundamente a destinação de cada alma, e que esta seria a perfeição.

Conhecia a imutável Lei do progresso, e ousou dizer àqueles homens ainda de coração endurecido, que no futuro, quando desejassem, seriam como Ele já era.

Era o habitante do topo da montanha, dizendo aos que acabavam de começar a escalada, que todos poderiam chegar no cume um dia.

Era o aviador experiente irradiando esperança aos pilotos novatos.



[1] Saint-Exupéry, Antoine de. Terra dos Homens. Ed. Nova Fronteira. 2006

[2] Diminuição do tônus muscular. Característica frequente em crianças com Síndrome de Down.





(5) Comentários
  • Amanda 11.12.2015 às 15:59:22

    Nosso querido Andrey!!! É com muita emoção que lemos as tuas lindas palavras, assim relembrando dos nossos desafios já superados e também a alegria de ver e participar dos desafios dos meus netos queridos, cada um com as suas vitórias, tão pequeninos e já vencendo com honestidade e alegria. E também a felicidade de saber que eles tem um pai como você. Amo todos vocês, com toda força do meu coração!
  • eliane 11.12.2015 às 15:59:22

    Querido Andrey! A força e a determinação presentes em seus amados e maravilhosos filhos, são o reflexo de todo amor e dedicação que você e a Ju tem para com eles, desde que lhes foram confiados... Vocês são pais extraordinários!!!
  • eliane 11.12.2015 às 15:59:22

    Querido Andrey! A força e a determinação presentes em seus amados e maravilhosos filhos, são o reflexo de todo amor e dedicação que você e a Ju tem para com eles, desde que lhes foram confiados... Vocês são pais extraordinários!!!
  • shou 12.12.2015 às 15:59:22

    Obrigada Andrey por compartilhar suas experiências conosco. Obrigada por nos relembrar da importância do estímulo positivo em nossas vidas.
  • NOELISA 14.12.2015 às 15:59:22

    É emocionante e motivador pensar em quantos desafios eu já superei para chegar a estar onde e como estou hoje .Ao mesmo tempo adoro demais essa sua capacidade de dizer coisas tão verdadeiras e importantes com tanta doçura delicadeza... Isso me ajudou e me ajuda muito a acreditar mais em mim e a perceber meu crescimento,minha mudança para melhor.OBRIGADA AMIGOQUERIDO, POR TUDO QUE VC JÁ ME ENSINOU,JÁ FEZ POR MIM , PELO CARINHO QUE SEMPRE TEVE POR MIM ,VC FOI, É, E SEMPRE SERÁ MUITO ESPECIAL E IMPORTANTE PARA MIM.BEIJOS CHEIOS DE GRATIDÃO E MUITO CARINHO A VC SEMPRE...
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