2015 - MUITO A DIZER

 

MUITO A DIZER


Amelie tem muito a dizer.

Outro dia falou-me sobre os passarinhos e de como temos que calar, vez ou outra, para ouvi-los. Colocou a mão sobre a orelha, posicionando-a para frente, e fez aquele som de “shhhh”. Ficamos quietos, por alguns segundos, e me lembrei de como é bom aquele som.

Contou-me sobre suas aventuras no parquinho de madeira, toda orgulhosa, pois agora conseguia subir não só pela escada (muito tradicional para ela), mas também pelo escorregador – no sentido contrário – e pela rede trançada amarela, muito difícil, que balança sem parar conforme seus pezinhos vão se fixando em cada pedaço de corda. As pernas e braços estão fortes. Mais uma conquista importante!

Narrou suas aventuras com seu cachorrinho, agora seu amigão e parceiro de fuga, pois basta um cochilo nosso, uma porta de casa entreaberta sem supervisão, e os dois se revezam em fugir condomínio a dentro. Ele vai tranquilo, como se seu quintal agora fosse gigante. Ela sai correndo e dando risada, pois sabe que vem alguém em desespero atrás. (Cada vez que a vejo correr me recordo de todo processo, as terapias, exercícios, de toda ansiedade envolvida em vê-la caminhar pela primeira vez. Difícil, trabalhoso, como tudo que é valioso na vida. E ela conseguiu.)

No banho repetimos os nomes dos animais de borracha, um a um, muitas e muitas vezes. Aproveitamos para cantar algumas músicas que ela gosta, para brincar de estátua, dançar, e ela sempre me diz que eu fico muito mais jovem quando estou assim, solto, sem preocupações, sem pudores tolos, vivendo aquele momento inteiramente, sem pensar no antes e sem pensar no depois.

No carro cantamos em voz alta as músicas dos DVDs. Temos um repertório muito variado. A cadeirinha parece uma prisão ou uma camisa de força por vezes, pois ela quer espaço para esticar os braços, a pernas, o corpo todo. Conversamos pelo retrovisor. Damos boas risadas pelo retrovisor. E não há nada que se compare aquele sorriso. Gargalhar com Amelie é apagar o mundo sombrio por alguns instantes e ficar apenas com a luz da vida no olhar. Tudo que não é sorrir perde o valor...

Vez ou outra a surpreendo perguntando o que ela está achando da nova vida e ela fica pensativa...

Confessou-me que adora seu irmão mais velho e toda atenção que ele lhe dá. Como é bom ter um irmão. Ninguém a faz gargalhar como ele... Ela sabe que ele tem muitas coisas a fazer: escola, videogame, amigos, programas de televisão super legais, por isso fica muito grata por ele guardar um tempo para ficar ali com ela, rolando no tapete da sala ou mostrando um aplicativo novo no smartphone com toda paciência do mundo (ambos já são experts nestas tecnologias, aliás).

Ela me chama de “mamãe”... Não me incomodo, pois esta é uma palavra sagrada, eu sei. A primeira que ela aprendeu. Fiquei pensando, e acho que para ela ainda sou uma espécie de “extensão” deste ser, deste “ente”, chamado MÃE, que é o que há de mais importante na vida, de onde ela tira todas suas forças, sua coragem, sua alegria, sua segurança. Talvez a explicação toda esteja aí: o amor da mãe dela é tão grande que tem até ramificações, e uma delas sou eu – simples assim.

Aliás, esses dias flagrei um diálogo entre as duas, quando faziam a oração antes da pequena dormir. Amelie nos braços da mãe, olhos arregalados e brilhantes. Cada palavra proferida pela genitora refletia naqueles olhinhos espertos e retornava com uma beleza inenarrável. As duas belas vozes se somavam no espaço e viravam estrelas...

Amelie tem muito a dizer.

Amelie tem três anos e quatro meses e ainda não fala.

Temos calma e paciência, pois sempre soubemos que com ela tudo seria mais lento, em outro tempo, não no tempo do relógio – tão apressado. Talvez a vida de Amelie seja regida pelo “tempo da delicadeza”, como afirmou tão bem Chico Buarque. Expressões que utilizamos com nosso primeiro filho, como “Nossa! Quando vimos já estava andando”, ou “De uma hora para outra já estava falando tudo!”, não se aplicam a ela. E não há problema algum nisso. Pelo contrário, as conquistas são vividas mais intensamente.

E assim a Síndrome de Down nos leva a uma viagem singular através dos dias, a passos lentos e firmes. Terapias, exercícios, estímulos, aprendizados... Convites constantes à paciência, à persistência e ao bom humor.

Amelie tem nos dito muito sobre a vida.





(9) Comentários
  • Rosemary Balem Cerqueira 02.03.2015 às 15:58:20

    Concordo plenamente com você Andrey, Amelie tem muito a dizer. Já diz muito. Ela está a nos dizer que a vida é maravilhosa, que o tempo é individual, que a nossa dedicação ao outro nos completa. Um abraço. Rose
  • NOEVAL DE QUADROS 02.03.2015 às 15:58:20

    quanta sensibilidade, querido amigo Andrey. "Tempo da delicadeza"... Amelie é mesmo um presente do papai do Céu. Ela tem muito a dizer. E nós temos muito o que aprender com ela. E, como você costuma dizer, citando Cecília Meireles, a vida só tem sentido quando é reinventada!
  • jane antunes 03.03.2015 às 15:58:20

    Lindo, lindo. Adoro me perder nos olhos de Amelie! Beijos a essa família linda!
  • Beth Moraes 03.03.2015 às 15:58:20

    Com toda certeza Ameli tem muito a dizer, porque ela fala com os olhos, com os gestos, com o coração. Com toda certeza Ameli é uma benção de Deus. Parabéns por esta Luz que ilumina seu lar e a todos que a rodeiam.
  • Vanessa 05.03.2015 às 15:58:20

    Que texto lindo Andrey!!Quanto amor e dedicacao de voces, Ameli teve a sorte de ter uma familia maravilhosa como a sua!!E voces de terem uma crianca abencoada cheia de docura e amor!!
  • MARIA JOSELIA BAGGIO 05.03.2015 às 15:58:20

    Texto maravilhoso Andrey! Que Deus ilumine vc e sua família.
  • Sérgio Artur 06.03.2015 às 15:58:20

    Conheço Amelie. Nos colos dos corações amigos. Feliz tudo observava no auditório repleto. Linda criança, crescendo para o Pai. Um fraterno abraço. S.A.
  • Eny Galvão Patriota 06.03.2015 às 15:58:20

    Achei linda toda a narrativa da vida de Amelie até agora! Parabéns pelo amor e carinho por quem só lhes dará alegria por toda a vida!
  • Elisa Muniz 14.07.2015 às 15:58:20

    Tenham a certeza de que a Amelie já disse muito a muita gente durante estes tres anos... At.ravés principalmente de seu sorriso. Um grande abraço a toda sua família.
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