2013 - A MELHOR IDADE DO AMOR

 

A MELHOR IDADE DO AMOR

Sábado, 10:21 da manhã. Chuva insistente de outono.

Um casal adentra a uma panificadora para tomar café.

- Dois cafés com leite e 3 pães de queijo, por favor.

Ela parece um pouco agitada. Não tira os olhos dele.

Ele parece tranqüilo. Dessas pessoas que já conseguem viver num tempo um pouco mais lento do que o do relógio dos dias atuais.

A diferença de idade é gritante. Não mais de 40, ela. Próximo aos 80, ele.

A mulher não parece se importar com as possíveis conclusões ou opiniões que os outros possam ter desse encontro, pois não olha para os lados uma única vez.

Ele olha para fora pela janela entreaberta, depois descobre o salão sem pressa, e por fim pousa as mãos lentamente sobre a mesa de madeira antiga.

Ela sorri, carinhosa.

-Todos os seus filhos nasceram aqui nessa cidade?

Ele pensa um pouco... -Sim, todas elas... três filhas.

-E você? Onde nasceu? – volta a inquirir a mulher.

-Eu não sou daqui. Nasci no interior... longe da cidade.

-E o que você lembra de lá?

-Ah... muitas coisas... – responde ele, com leve sorriso.

Então, silencia. Parece fazer algum esforço para recordar de algo especial, mas logo desiste. Volta a olhar para fora, procurando a chuva fina, e depois de alguns segundos continua a falar:

-Sabe... acho que tive uma vida feliz...

Ela permanece interessada. Um interesse de primeiro encontro. Observa os cabelos brancos dele, a tez um pouco castigada, os olhos azuis.

Respira fundo. Alguém poderia dizer que é o respirar de quem está apaixonado.

-Você só casou uma vez? – pergunta ela, com certo embaraço na voz.

-Sim. Tereza. Mãe de minhas meninas. Que Deus a tenha.

Ela fica um pouco emocionada e constrangida, repentinamente. Esboça um sorriso para disfarçar. Olha para a mesa. Ainda restava um pão.

-Pode comer. Já estou satisfeita.

-Almoçamos juntos amanhã? – pergunta ele, ansioso por ouvir um sim.

-Sim... claro que sim. É dia de almoçarmos juntos. Você sabe que gosto muito de estar com você, de ouvir suas histórias...

-Estou um pouco esquecido hoje, eu acho. Contei pouco...

-Não tem problema – disse ela, carinhosa. -Tem dias que a gente está com a memória mais fraca. Sabe que esses dias precisei lembrar o nome de minha professora de piano, e levei uns 5 minutos para recordar? Logo ela que me deu aulas por mais de 15 anos!

-O Dr. Maurício disse que é importante ficar puxando as coisas da memória sempre. Ele diz que é como um exercício físico que fazemos para não “enferrujar”. – conclui ele, concordando com as observações prévias dela.

-É verdade... – ela suspira. – Precisamos cuidar da memória...

Novamente um longo silêncio entre os dois.

Ele volta a vislumbrar o exterior, contemplativo e sereno.

Ela nota seu rosto em detalhes, com um misto de ternura e compaixão.

Fecha os olhos, por um instante, como se fizesse uma breve oração, uma rogativa pequena e sincera a uma força maior.

Volta a abri-los, vagarosamente, e então pergunta:

-Pai...

-Pai... Posso pedir a conta?

Ele acena positivamente. A conta chega. Ela se levanta primeiro, vai em direção a ele, envolve-o num abraço e o ajuda a levantar.

Aquela era a rotina de todo sábado, às 10:21 da manhã, nos últimos dez meses.

A.C. 13.06.13





(2) Comentários
  • Nádia de Arins 15.06.2013 às 15:56:03

    É comovente essa história de amor! Adorei!
  • Elizabeth de Moraes 16.06.2013 às 15:56:03

    Linda história de amor! Que momentos maravilhosos! Gostaria de ter passado momentos iguais...lindos....mas não tive tempo......ele partiu antes......já está algum tempo em Nosso Lar. Amei!!!!!!!!!!!
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