1999 - O Perdão do Rei

 

 

À minha esposa

Perdão

Pelas memórias tristes de um dia...
Pela ausência de mais alegria
em tudo que teu ouvir sempre ouvia.

Por ter te construído jardins inteiros
e não ter colhido suas flores, seus cheiros
na companhia de tuas mãos, nestes canteiros

Pelos castelos e fortalezas que abrigaram tuas vestes
mas que nunca guardaram em paz o coração que me destes
que jamais tiveram janelas que mostrassem paisagens celestes

Pela solidão que os períodos de guerra traziam,
pois a armadura escondia o rosto e os olhos que sorriam
aprisionava o abraço, a presença e as lágrimas que vertiam

Por ter recebido teu completo amor e nunca ter agradecido.
Por tê-la amado pouco e pelo pouco tempo a ti concedido.
Por tão breve minha passagem nestas terras ter sido...

Ao meu povo

Perdão

Por não ter sido o rei pelo qual vossas esperanças ansiavam
quando tormentas surgiam, quando pesares inundavam.
Por não ter em vós pensado, quando difíceis os momentos estavam.

Pelas batalhas que perdemos e por aquelas de vitória,
pois sendo guerras, serão sempre êxitos irreais em nossa história.
Serão marcos e marcas de iludidas glórias.

Por não ter visto vossas necessidades com vistas piedosas
e ter edificado no egoísmo minhas idéias valorosas,
fazendo-as sem sentido, falsas e orgulhosas.

Por não tê-los tratado com a justa igualdade
vendo a nobreza no título e não na bondade,
descobrindo apenas hoje, que sois mais nobres do que o rei - eis a verdade...


Ao meu filho

Perdão

Por ter te deixado a herança de uma coroa, sem nunca tê-la feito brilhar
com o reconhecimento das pessoas por um digno reinar
Por te entregar a responsabilidade de um povo triste liderar

Por não ter sido o pai pelo qual tuas esperanças ansiavam
na educação de tua vida, nas imagens que minhas ações espelhavam
Por não ter sido o exemplo que tuas virtudes procuravam.

Pela ausência do diálogo e da amizade paternal
que saberiam compreendê-lo, evitando todo mal
que teriam nos unido num laço imortal... 

À minha filha

Perdão

Por não ter conseguido acompanhar a infância de teu viver
período de tanta importância para a formação de teu ser
uma nova vida... nova oportunidade de crescer

Pela simples lembrança que serei em tua alma
desaparecendo no esquecimento que o tempo instaura
tornando-me cor transparente nos tons de tua aura.

Por não estar ao teu lado nas preces de teu noturno leito
protegendo teu sono com o amor maior de meu peito,
sendo eu o dono da missão de pai que tanto respeito... 

À Deus

Perdão

Por ter me afastado de ti em todos estes anos
buscando a elevação do ego e não a das virtudes que tanto buscamos
procurando pela riqueza da pedra em todos os planos

Pelas vidas e famílias que meu poder cobriu de desventura
Pela piedade e compaixão inexistentes em minha postura
Pelos embates, batalhas e guerras de amargura

Por ter esquecido das promessas de ontem... tão esperançosas
Promessas de tentar contribuir e não destruir, nestas paragens maravilhosas
Por não ter amado meu povo em ações, versos e prosas...

Pela insistência no erro em mais uma existência
adiando felicidade e paz de consciência
para um amanhã distante, nas leis da conseqüência.

Perdão...

 

**Poema integrante do livro "No Castelo do Espírito", de Andrey Cechelero**

 

 

 





(0) Comentários
Nenhum comentário disponível.
Nome: *
E-mail: *
Mensagem: *

*Campos Obrigatórios

destaques

  •  

    15 ANOS DE CARREIRA DE ANDREY CECHELERO

  •  

    Uma seleção de músicas com imagens belíssimas

  •  

    Primeiro livro de Andrey Cechelero - poemas